quarta-feira, 12 de outubro de 2005

Os dois paradigmas do gaitista

[publicado no Portal Gaita-BH em Janeiro de 2002]

Exato. O cara que vos direciona a palavra é gaitista. Mas como tal tem feito certas observações que com certeza podem ser extrapoladas para outros campos da música.

Mas voltemos ao maravilhoso instrumento que é a gaita. "Gaita? Ah, aquela flautinha que a Alanis toca, né?" ou então essa, minha preferida: "Você já pensou em tocar um instrumento de verdade?"

Pois é. Ninguém acredita que a gaita é realmente um instrumento. Mas é. Só que esse não é o tema deste texto, e não elaborarei mais. A falta de reconhecimento - inclusive dos próprios músicos - da gaita como instrumento musical completo leva a um ônus ainda maior do que a pequena presença de gaitistas em bandas: a presença de gaitistas que cantam mal.

Não quero dizer que o gaitista não pode cantar. Mas digo que o cara não deve cantar só porque tem que fazer algo a mais na banda. Essa situação leva muitos músicos que nunca pensaram em cantar a tomar o papel de cantores das bandas, sem preparo nenhum. E cantores de talento e preparo acabam perdendo a vaga.

Ou seja, nós gaitistas temos que nos livrar do primeiro pardigma do gaitista: gaitista, além de tocar gaita, tem que cantar. Tem nada! Tem é que fazer aquilo que sabe fazer melhor: tocar gaita.

Tendo exposto o primeiro paradigma do gaitista, vamos ao segundo: todo gaitista tem que tocar blues.

Esse paradigma é um pouco mais complicado. É difícil explicar que a gaita tem uma propensão natural ao blues. O cara põe os lábios na dita cuja e tchans, depois de Asa Branca e Oh, Suzana!, lá vem um blues meio que do nada.

Bem, o blues não veio muito do nada não. A gaita diatônica (aquela pequena, de dez furos) tem a disposição das suas notas que favorece muito melodias que seguem a escala de blues. Por isso a gaita ganhou um espaço de honra no blues, logo de início.

Gaitistas iniciantes querem ouvir como se toca gaita e acham as músicas em discos de blues. Agora, uma vez que se começa a ouvir blues, gosta-se do blues. E tenta-se tocar blues na gaita. E percebe-se que o blues sai bem na gaita. Pronto, o cara tá tocando blues. Tanto blues que acaba deixando de lado as outras vertentes musicais. E isso é uma pena.

Uma vez desabafados os dois paradigmas, gostaria de realçar algumas relações entre eles.

A gaita diatônica permite algo fantástico ao gaitista: tocar música sem um pingo de teoria musical com muita naturalidade. Como a gaita vêm em diversos tons, uma vez com a gaita no tom certo, praticamente tudo que se tocar na bichinha cairá bem com a música nesse mesmo tom. Então, para tocar bem, não é necessário aprender inúmeros modos e escalas, basta apurar a técnica.

E a técnica, na gaita, é adquirida de ouvido. Isso. A gaita é barata. Você compra uma e tenta tirar Asa Branca. E a coloca no bolso e toca quando ninguém está vendo. E as músicas vão saindo. E você vai tocando cada vez melhor, e toca blues. Até o ponto que não repara mais que as pessoas estão olhando torto no ponto de ônibus.

Então, quando menos espera, alguém, com um violão, te chama para tocar alguma coisa junto. "Solta um blues em Mi", você diz, com tua gaita em Lá na mão. E, cara, que legal, mó sonzera! Só que a praia do violeiro é outra, talvez um rock, ou mpb. E então o gaitista fica meio sem saber o que fazer, só está acostumado com blues. E a coisa desanda.

E o desandar da coisa decepciona o violeiro que pensa que gaitista não é músico, pois só toca blues e não sabe teoria para tocar outra coisa. Pronto. Os dois paradigmas se entrelaçam e se justificam. O gaitista, que não é músico completo acaba como vocalista de uma banda de blues.

Mas ainda bem que a gaita, como a música, não tem fronteira. E com ela pode-se e deve-se tocar de tudo, com ou sem teoria. Existe a gaita cromática, existem afinações especiais, existe teoria. Todos esses suportes permitem ao músico conquistar o respeito de seus pares fazendo o que mais gosta, tocando gaita, não necessariamente blues. E deixa aquela tua prima bonita cantar na tua banda, vai!

Fernando Bresslau

(Fernando Bresslau carrega uma gaita no bolso há uns 10 anos e até hoje não teve a vergonha na cara de tomar aula. Gosta de fuçar em coisas, e com a gaita não poderia ser diferente. Mora em São Paulo, e, por estudar Engenharia Naval, não tem banda. Mas vira e mexe dá uma canja por aí.)

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16 comentários:

  1. parabéns pelo seu post kra, tbm tenho uma gaita e queria sair c/ ela no bolso, mas infelizmente ñ pude dedicar a ela o mesmo tempo q dediquei ao violão qdo comecei a tocar.... mas queria mto saber tocar gaita e vou dizer q concordo plenamente c/ seu post, se ñ tocar blues ferrou, rsrs curti mesmo seu blog se quiser pode visitar meu blog tbm, ñ tem nada de gaita mas tamo ae

    abraz


    mauriciovaleriano.blogspot.com

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  2. Nada te impede de colocar a gaita no bolso e andar com ela por aih todo dia. Eu sempre, realmente sempre, tenho uma gaita comigo.
    Gaita, carteira e celular.

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  3. Caros admiradores deste perfeito intrumento musical chamado gaita ou hamônica. Me chamo Fred Wanderley, residente em Recife-PE. Fui a um show de blues na semana passada, a banda era a famosa Blue Jeans e fui após sair da facul que fica bem próximo. Sem comentários o que o trio faz, extra, é a melhor banda que já ví de blues. Sou literalmente obsecado por e nesse mesmo local onde rolou o show tem o Blues by Nite todas as quartas. Tenho uma gaita em C que faço de tudo para tentar tirar os sons dos bons gaitistas mas ainda não domino a técnica, sempre procuro obter informações sobre técnicas de gaitas em vídeos no you tube. Admiro quando alguém manda aquele som destorcido do blues e gostaria de saber como se faz esse tipo de som. Desculpem por ser leigo nesse assunto mas o que significa Bends???? Como tirar o som do verdadeiro blues numa gaita???? Tem algum site que passa essas informações???? Por que minha gaita que é em C tem o som diferente do que escuto nos Blues????

    Grato pela atenção e abraço a todos.

    Fred Wanderley.

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  4. oi fred, o ideal é procurar um professor mesmo prá ele te dar os toques. tem muita coisa na web sim. dê uma olhada nos sites ao lado e boa sorte!

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  5. Perfeita a discrição. comecei com a minha a pouco tempo, as vezes esqueço a carteira, mas ela está sempre lá. Espero chegar nessa da parada do onibus. hauhauhauahauhua
    VLW CARA!

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  6. naada so toco blues porque so gosto de blues e nada nem ninguem nem ou o que me sugere esta estoria de paradigmas vai ne fazer tocar outra coisa...so um forrozinho de vez em quando!!!

    a e o post ta joia!!

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  7. naada so toco blues porque so gosto de blues e nada nem ninguem nem ou o que me sugere esta estoria de paradigmas vai ne fazer tocar outra coisa...so um forrozinho de vez em quando!!!

    a e o post ta joia!!

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  8. Meu nome é Zé Luiz, faz um tempinho que eu comprei uma gaita master blues em dó, assisti alguns vídeos na you tube mas estou tendo muita dificuldade. Então resolvi procurar um professor, mas para minha decepção ele chamou a minha gaita de: "um piano sem teclas pretas", e que se eu fosse tomar aulas com ele, eu deveria comprar um hamonica de luxe 6164, pois ele não ensinava com essa gaita. Por ser um leigo eu respeitei a opinião dele não me agradou em nada. Eu pensei que para começar deveriamos começar com uma diatônica. Eu não comecei a gostar de Blues depois da gaita, comecei a gostar da gaita pelo Blues. Gostei muito do seu Blog, Parabéns!!!

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  9. Oi, Zé Luiz.

    Existem várias vertentes no mundo da gaita. De fato, apesar de ser possível cromatizar a gaita diatônica através dos bends e dos overs, alguns professores preferem não ir nesta linha por causa de uma dificuldade na obtenção destas notas que não vêm "prontas" na gaita.

    Cada professor tem uma linha, não vou entrar no mérito se o seu professor está certo ou não. Acho que a maioria dos professores de gaita são pessoas que realmente têm o que acrescentar, mas o aluno também precisa saber o que quer para saber se aquele professor pode ajudá-lo ou não num aspecto ou outro.

    Eu acredito que, no caso específico do professor que vc pegou, ele esteja pensando em te ensinar pela teoria musical primeiro, para depois entrar nas técnicas para obter overs e bends, daí a preferência dele pela cromática. É um caminho perfeitamente válido e a teoria musical vai pavimentar seu caminho no aprendizado da gaita.

    Mas talvez, seja o caso de vc procurar um professor com uma "pega" mais blueseira, já que parece que vc está mais interessado especificamente no blues.

    Neste caso, provavelmente o professor iria te ensinar primeiro as escalas mais usadas no blues e efeitos na diatônica, que são os recursos mais utilizados. Você ficaria um pouco mais limitado como músico num primeiro momento, mas chegaria mais rápido ao seu objetivo de tocar blues.

    E existe ainda uma terceira via, que é aprender diatônica como instrumento cromático desde o início, que é como ensina por exemplo o Otávio Castro, que tem uma abordagem muito clara neste aspecto, assim como as aulas na web do Howard Levy (imagino que sejam boas para cromatismo, não conheço muito para dizer).

    No mais, sucesso nos estudos e obrigado pela presença.

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  10. Cara, o post tá muito bom. Me identifiquei em vários pontos... De andar com ela no bolso, de tocar no ponto de ônibus, de ser chamado pra tocar com um violão... E os paradigmas realmente existem. Nosso instrumento não é reconhecido facilmente, é preciso mostrar o que ele pode fazer. Mas acho até bom, poder tocar e mudar a opinião das pessoas. Abraços.

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  11. Bom comentário Fernando , mostra que você realmente deseja ser um musico e não apenas um gaitero. Infelizmente essa é a realidade no Brasil e USA principalmente. Comecei na aborrecencia (como todos) e na época me identificava mais com a diatonica, não deixando de lado a cromática que foi realmente a primeira gaita que tive. O jovem principalmente tende a crer que musica é rock, blues e alguma outra coisa que esta tocando mais no radio. O resto é velho, ultrapassado ou não interessa. Comecei no rock e no blues e a medida que fui progredindo, porque sentia muita dificuldade, queria entender realmente o que esta sendo feito na musica e não apenas copiar um riff e decorar algumas dezenas de música, tive que estudar realmente. Como também tocava violão, fui aprender violão , mas principalmente, fui aprender música. E em se falando de aprender música o caminho é longo e não tem jeito. Estudar música é estudar música erudita, ou popularmente musica clássica.Preconceito ? não, realidade. Não concordo com Raul Seixas quando ele diz que "nunca viu Beethoven fazer aquilo que Chuck Berry faz". É uma comparação injusta. Até porque Beethoven não estava vivo (graças a deus) para ver no que a música se transformou. Se estive ,daria garglhadas e diria que isso é brincadeira de criança. E realmente, perto de um beethoven e de um Mozart, qualquer estilo musical do sec XX ou XXI é brincadeira de criança. Digo isso não para discriminar mas apenas para dizer a realidade que acontece nas Americas. Poucos são os músico que se profissionalizam e que estudam alguma coisa.A filosofia aqui em casa é : Se você toca e entende musica classica, toca qualquer coisa. O contrário já não vale. Já viu alguem dizer : manda aquele adagaio do conerto de arranjuez que vou solar aqui ? Vi gente perguntando sobre tablatura, ora o que uma tablatura ? uma redução popular de uma partitura que deixa vários elementos fora para se focar somente nas notas.É um começo mais é pobre. Quer aprender a tocar? vai ler partitura! Musico que não lê partitura não é musico. É como um analfabeto. O cara sabe falar, vive como qualquer outra pessoa mas vai ter uma série de problemas ao longo de sua convivência. Musica é a mesma coisa. Existem( e existiram) grandes harmonicistas( tá, gaitistas) nos Brasil e alguns estão entre os melhores do mundo.Mauricio einhorn,Jose Staneck(conhece?),Edu da gaita,Hildo Hora,Ronald da gaita,Jeovah da gaita e por aí vai. Você vê que não sitei nenhum "bluseiro" mas foi proposital. Só para as pessoas perceberam a dimensão do problema. Você sabia que Villa-lobos (sem comentários!) compôs um concerto para Harmonica e Orquestra em homenagem ao Edu da Gaita? e que além dele só o Staneck foi o único outro brasileiro a toca-lo? Sabia que existe poquíssimos concertos para harmonica no mundo, ou seja, um instrumento ainda pouco explorado e que nós já temos uma composição 100% nacional? Sabe Por que poucos foram o que tocaram ? Dificuldade elevadíssima. Grau 10 de execução. Na diatônica então , nem pensar, só na cromática e sinceramente depois de anos de prática. Isso desestimula ? acho que pelo contrário. Se você se desestimula por isso, porque acha que não vai conseguir tocar então seu caminho é o rock e a musica popular. Sério, musica popular em alguns meses você aprende a tocar,já muisca erudita bota alguns anos mas o resultado é muito satisfatório. Você vai ver que depois tudo parece simples e que você pode até ajudar a elevar o nivel, tocar melhor porque o popular é isso mesmo, mais simplicidade. Não que seja ruim ou feio mas é mais simples. Agora , só não discimine pois se vc não consegue tocar, não significa que é chato ou ruim, seja sincero e diga : è bonito para caramba mas eu não consigo tocar.

    Abcs...

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  12. Alguém pode me indicar uma escola de música no RJ onde eu possa aprender teoria musical?

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  13. Cara adorei o post!

    Estava procurando um instrumento "fácil", pra quem já tentou muitas cordas e não deu certo. Cheguei a gaita, mas não queria passar a vida no Blues, sabe?!

    Então, eis que surge seu post, adorei! Obrigada pelo apoio involuntário, vou lá amanhã dar uma olhadinha em uma Bends, Hering ou sei lá... Diatônica e em Dó, afinal começo é começo, mas com esperança de conseguir uma cromática e algo mais no futuro! *Abços

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  14. Desculpa ae minha digamos ''ignorância''; Teoria é muito importante, agora sem talento, criatividade e principalmente feeling, isso não serve pra muita coisa não.
    Ja vi e ouvi muito músico com teoria e conhecimento sufientes pra tocar qualquer coisa (até villa lobos e mozart), sem emoção e pegada nenhuma, igual a um robô. Música, mais que apenas notas certas nos lugares certos e na hora certa, é emoção e sentimento, independente de qual seja ele. Vide os grandes bluseiros dos anos 30, 40 e 50. sem teoria nenhuma, mas com criatividade e inventividade quase sobrenaturais, usando quase sempre as mesmas notas e reinventando-as de maneira a criar algo novo e estimulante. Esse é o espirito do rock e da boa música digamos ''popular''como o folk, o jazz, a bossa-nova, soul, funk, etc etc...

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  15. Galera, gaita é o instrumento mais portátil do mundo, porém muito pouco difundido no Brasil e um bom lugar para achar métodos é no chico blues. Valeu o recado e se tiver um tempo dê uma olhada nos meus vídeos de gaita no youtube é só digitar Ednaldo262. Valeu

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  16. Renan Braga12/07/12 01:32

    Felizmente hoje existem gaitista que fazem sons fora do blues, e auxiliam a compreender as múltiplas possibilidades que este pleno instrumento traz. Tenho escutado bons gaitistas no choro, samba, jazz, e últimamente tomei conhecimento de um bastante inusitado chamado " So Parent - Forreggae", vale a pena conhecer: www.soparent.com.br, tem varios videos no youtube. É isso, parabéns aos que ampliam os horizontes da gaita.

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